Os Bois pedem Passagem…


Os Bois pedem Passagem na cidade de Bonito/PE
Segundo Encontro da Cultura dos Bois acontece nos dias 20 e 21 de Maio

A Federação Cultural de Bois e Similares do Estado de Pernambuco (FECBOIS/PE), realiza nos próximos dias 20 e 21 de maio o Segundo Encontro Nordestino da Cultura dos Bois na cidade de Bonito, no agreste do Estado, a cerca de 104 km da capital.

O objetivo do encontro é fortalecer as discussões sobre políticas publicas voltada aos segmentos cultural dos Bois.
Em parceria com a pesquisadora, historiadora e professora Carmem Lélis, produzir um material que traz curiosidades sobre essa cultura, segue também um entrevista com o Mestre Bio, uma das figuras mais expressivas da brincadeira do Boi em Pernambuco. Espero que gostem.

O BOI PERNAMBUCANO SUAS NUANCES E A PRESENÇA MARCANTE DOS SEUS MENSAGEIROS

Mestre Bio – Remanescente do Folguedo do Boi em Pernambuco

Tradicionalmente representado durante o Ciclo Natalino, na atualidade o brinquedo do Boi é elemento constante no carnaval do Recifee do estado de Pernambuco. No natal referenda-se a partir do Auto ouDrama Pastoril e apresenta-se como uma forma de teatro hierático, herança européia, desde a Idade Média associado a festas da Igreja. Entretanto, em diversos países e culturas as mais longínquas, acontecem representações e alusões à sua presença no imaginário popular; o Boi Ápis, a Vaca Isis, oTouro Mnéris, o Touro Guaque… E tantos outros vivenciados nos universos profanos e sagrados.
Segundo Pereira da Costa, desde o período colonial o Brasil convive com representações do Boi: O Boi-bumbá, do Amazonas; o Boi Calemba; do Rio grande do Norte; o Cavalo-Marinho, da Paraíba; o Boi de Mamão; de Santa Catarina; o Boizinho do Rio grande do Sul… São muitas as traduções e formatos vivenciados pelas comunidades produtoras dos brinquedos, inclusive trazendo enredos variados.
Para muitos considerado um dos nossos mais puros espetáculos populares, o folguedo do Boi mantém influências notadamente européias, porém traz na sua estrutura, temas, músicas e tipos essencialmente nordestinos. A presença negra, embora pouco mencionada é uma constante, assim como a influência das culturas indígenas. Faz-se necessário ressaltar que o sertão nordestino e a conhecida “civilização do couro”, como ficou designado o ciclo da pecuária, nos dá a forte presença cabocla do nosso vaqueiro, elemento símbolo da destreza e intimidade com o animal, assim como com o imaginário lúdico e religioso.
Em Pernambuco apresenta-se de forma diversificada, atendendo às distintas influências, próprias à zona ou região de onde se originam. Quando apresentados no Auto, podem demorar até oito horas de exposição em arenas onde o público expectador se coloca em círculo para assistir, assim como intervir no espetáculo onde os atores se manifestam mascarados e em número às vezes superior a sessenta personagens que entram e saem de cena repetidas vezes. Em sua grande maioria os papéis são representados por homens. Os papéis femininos ficam por conta de homens travestidos, com raras exceções.
As figuras dramáticas em geral são classificadas em três categorias: humanos, animais e fantásticos. O enredo embora seja peculiar e conhecido por todos, às vezes sofre interferências e varia a depender das influências externas.
Por fazer parte de um mosaico tão rico de culturas, como é o nosso, o folguedo é repleto de influências as mais diversas que alternam da brincadeira capaz de enfeitiçar adultos e crianças com suas cores e ritmos até as questões ritualísticas, com a presença do sagrado muitas vezes traduzidas a partir da religiosidade afra -brasileira e afro- indígena.
Deixemos um pouco o mote descritivo do brinquedo e passemos a uma justa e precisa reverência a um dos seus ilustres mensageiros: Um emissário dos Bois, no velho Recife dos Capitães que sempre comandaram a festa.

*Estamos falando do Mestre Bio – Benedito Félix da Silva – que Aos 75 anos de idade, é um dos artistas mais simbólicos do folguedo do Boi na atualidade.
Sua história, na brincadeira do Boi, teve inicio ainda na infância quando acompanhava o seu pai, Deodelino Felix da Silva, que participava do famoso, animado e respeitado Boi Misterioso de Afogados (1927), regido pelo Capitão Antônio Pereira. “Meu pai era João Carcundo (personagem dos antigos bois), sempre brincou, a família todo brincava”, expressa, emocionado, o mestre.

Paralelo às alegrias trazidas pelo Boi, o menino de sete anos passou por muitos momentos de tristeza quando um ataque cardíaco levou seu pai. Dois anos mais tarde perderia também sua mãe. Os irmãos mais velhos venderam a casa e ele ficou sem ter onde morar. Durante o tempo em que esteve na rua foi acolhido por mãe Sebastiana ou Dacifica Sancha da Silva, que lhe deu casa, carinho e uma direção religiosa dentro do candomblé. Sobre a tutela de mãe Sebastiana ele estudou, casou e trabalhou durante 28 anos em uma agência bancaria no Recife. Teve dez filhos, que segundo ele, perpetuam a brincadeira do Boi. ”Todos os meus filhos participam do boi, os filhos, os netos, todo mundo”, comenta.

Essa trajetória de força e luta se confirma no vigor apresentado por Mestre Bio durante as apresentações e espetáculos do Boi. Travestido de personagens como Mateus, Bastião, Alecrim e Empata Samba, ele esbanja alegria e simpatia por onde passa. Dono de um sorriso contagiante, todos se encantam com sua simplicidade. Seu primeiro personagem no Boi Misterioso foi o Alecrim (na brincadeira é responsável por colocar água para os cavalos beberem). “Mestre Antônio Pereira era compadre da minha mãe e pediu a ela para eu participar das touradas do boi, que saí todo domingo. E durante o carnaval a gente vinha a pé de Afogados até a Dantas Barreto, cantando numa alegria só.”

Depois de quase 70 anos participando ativamente do folguedo do boi, Mestre Bio fala da saudade que sente dos tempos de criança e de como a cultura do boi mudou. Ele entristece quando lembra de personagens que para a maioria dos bois foram esquecidos. “Eu sinto muita falta daquele tempo!”, afirma emocionado. “Hoje em dia não é todo mundo que sabe brincar de boi. Hoje não se canta mais para o Empata Samba, para a Maria À-toa, chega dá uma tristeza. É uma brincadeira muito bonita, mas tem que saber brincar”,conclui.

Por Camém Lélis e Gláucia Bruce

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